Para a noite
Há duas perguntas que quase toda a gente conhece. Chegam quase sempre de noite: Estou só? E que será de mim? Esta página não tem respostas. Faz-te companhia.
Estou só?
Tudo o que alguma vez viveste, viveste-o dentro de ti. De dentro não há maneira de verificar se os outros existem mesmo. A pergunta não é estranha — os seres humanos trazem-na consigo há milénios.
Mas repara: a língua em que a fazes, alguém ta ofereceu. As tuas palavras, as tuas imagens, metade do teu mundo interior — tudo chegou a ti através de outros. Quem consegue perguntar assim já traz muitos dentro de si.
E trazes em ti algo mais antigo do que qualquer pergunta: o ferro no teu sangue, o cálcio nos teus ossos nasceram dentro de estrelas. Tudo o que alguma vez amaste vem do mesmo começo. És parente de tudo.
E às vezes alguém sabe o que se passa dentro de ti antes de dizeres uma palavra. Talvez seja só a longa prática de viver juntos. Talvez seja mais.
Até a física conhece uma ligação que nenhuma distância desfaz: duas partículas de luz que estiveram juntas continuam a ser um todo — por mais longe que voem uma da outra. O que isso significa para nós, ninguém sabe. Mas estar separado não é a última palavra do mundo. Alguns acreditam até que a consciência não nasce em cada cabeça separadamente, mas é uma — como uma luz que entra por muitas janelas. Ninguém pode prová-lo, ninguém pode refutá-lo. Podes tê-lo por possível.
E que será de mim?
Trata-se do fim — e do que vem depois. Ninguém sabe. Nem sequer os que soam muito seguros — numa direção ou na outra. Até a ciência aqui se tornou silenciosa: quanto mais exatamente mede o mundo, maior se tornou o mistério, e o futuro, tanto quanto ela sabe, não está escrito em lado nenhum. É o mesmo lugar aberto para todos os seres humanos; já com esta pergunta não estás só.
Alguns pensamentos que se podem guardar como uma pedra no bolso:
Na natureza nada se perde. Tudo apenas se transforma — nada simplesmente acaba. Será que aquilo que em ti diz «eu» seria a única exceção? Ninguém sabe. Também o contrário é apenas uma suposição.
Uma onda corre para a praia e deixa de ser onda. Mas nada dela se perdeu: a água fica, o mar fica. Talvez sejas mais mar do que onda.
E uma coisa vale sem nenhum talvez: que tenhas sido nunca mais pode deixar de ser verdade. Nenhum fim apaga um único dos teus dias.
Alguns físicos leem até o próprio tempo assim: o que foi não desapareceu, está apenas noutro lugar — tão real como o agora. Uma imagem, não uma prova. Mas vem do próprio centro da física.
Se acreditas em Deus, talvez tenhas há muito uma palavra para tudo isto: que nada cai da mão de Deus. Se não acreditas, estes pensamentos sustentam na mesma.
As duas perguntas podem ficar abertas. Nenhum ser humano teve alguma vez de as resolver para viver. Quando pesarem, pousa-as como um livro. A respiração continua, o dia volta, e à tua volta há pessoas que trazem dentro as mesmas perguntas. Também isso significa: não estás só.
Se a cabeça continuar acordada: O que fica em aberto
Isto são pensamentos silenciosos — não uma terapia. Se a noite pesar demasiado, podes ir buscar mais: uma conversa, alguém ao teu lado, ajuda profissional.